
Ilhas das deusas
uantas pessoas cabem no paraíso? Só 2.200, número de visitantes que as Ilhas Cíes, arquipélago espanhol formado por três ilhas, podem receber diariamente. “As ilhas dos deuses”, diziam os romanos. Não estavam errados, mas se enganavam em uma letra. Na verdade, as deusas são elas.
Quando parte o último barco, por volta das 20h, ocorre um fenômeno estranho. Enquanto o sol se esconde, a neblina começa a rodear a ilha galega de O Faro, situada no norte da Espanha. É então que elas assumem o controle. Pouco a pouco, as gaivotas vão ocupando a areia branca e esponjosa das praias das Ilhas Cíes, incluindo a de Rodas, que ficou famosa graças a uma dessas listas de “melhores praias do mundo” que povoam a internet.

Rainhas da noite
O céu das Ilhas Cíes foi premiado com o selo Starlight, concedido aos melhores destinos do mundo para ver estrelas. Isso pode ser comprovado pelo trabalho dos participantes da Maratona Fotográfica Starlight Ilhas Cíes, organizada pela Luz Lux. Uma das imagens produzidas chegou até a ser publicada pela NASA, agência espacial norte-americana.
Nem por isso foi possível domesticá-las. Aqui, são as gaivotas que mandam, e a natureza obedece ao seu reinado. Quase virgens, suas nove praias estão circundadas por florestas de pinheiros e eucaliptos, além de outras espécies endêmicas como a ‘Armeria maritima’ (relva-do-olimpo). Na Antiguidade, esta planta era usada em poções mágicas relacionadas com o amor e a fertilidade. O feitiço das meigas (como os galegos se referem às bruxas) funcionou, ao menos para os visitantes que se rendem à beleza deste Caribe espanhol em miniatura. A diferença? A temperatura da água, que mal chega aos 20ºC no verão. Apesar do frio, sua transparência convida a mergulhar em busca de polvos, cardumes coloridos e florestas de anêmonas. Isso, claro, com roupa própria para encarar o frio.
Fora da água, são territórios dominados pelas aves. Além de gaivotas, conta com exemplares de corvo-marinho, açor e falcão-peregrino, animais que podem ser vistos mais de perto a partir de observatórios ornitológicos aos quais se chega por trilhas de terra.

A mais conhecida delas é a rota Monte Faro, que serpenteia um enclave rochoso e acaba em um farol. Ali, a vista panorâmica das três ilhas Cíes – Monte Agudo, O Faro e San Martiño – é privilegiada. Com apenas 7,5 quilômetros (ida e volta), o trajeto passa por falésias, dunas e florestas. Ao redor da torre junto ao mar, o vento é forte e as gaivotas misturam-se com os visitantes à caça de sanduíches ou frutas. Passeiam e dissimulam, cada vez menos tímidas, como se soubessem que, dentro de algumas horas, tudo será novamente delas.

Só poucos afortunados podem assistir ao ritual das ilhas ao anoitecer. Ao comprar passagens, a volta sempre é marcada para o mesmo dia, a não ser que se tenha reserva para o camping, bastante disputado no verão e localizado atrás de uma encosta. Com o pôr do sol, começam as rodadas da cerveja local, a Estrella Galicia, no único bar aberto ali. Entre os “hóspedes” do acampamento, surge uma espécie de cumplicidade silenciosa, como se compartilhassem um segredo. Ninguém se aventuraria nas praias neste ponto: é o momento das gaivotas.








