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Viagem ao inferno

A depressão de Danakil, no Chifre da África, é um dos pontos mais quentes do planeta. O local tem apenas 60 mil habitantes, mas são muito menos os que se atrevem a visitá-lo.
O
termômetro marca 51ºC às quatro da tarde. O deserto de Danakil é conhecido como o “inferno na Terra”. Atravessá-lo é seguir os passos de Rimbaud que, quando se cansou de escrever poemas, tentou a sorte na África como traficante de armas.
Debaixo do sol abrasador as temperaturas alcançam os 63ºC e no verão nunca descem dos 40ºC. Uma verdadeira prova de resistência para um faranji, nome que os etíopes dão aos estrangeiros. Dallol é a cratera vulcânica situada na depressão de Danakil e tem o recorde da mais alta temperatura anual alguma vez registrada.
Não existe nenhum lugar para se comprar uma bebida ou comida ao longo de vários quilômetros.
Aventurar-se neste lugar inóspito exige medidas de segurança. “Ficar sem veículo de apoio, sem comunicação via satélite ou sem água pode ser mortal”, avisa um dos guias. São necessários 500 litros de água para cada oito pessoas.
Explorar Danakil em grupo não é para qualquer um, viajar sozinho, então, é uma realidade quase inimaginável. Na viagem é ainda necessário ser acompanhado por uma escolta militar formada por três soldados. A contratação dos militares é imprescindível para evitar incidentes com a população local.
A temperatura média anual do Danakil é de 34ºC. É qualificado pelo governo da Etiópia como ‘área sensível’.

Dormindo sob as estrelas

Para viajantes experientes e épocas menos quentes (novembro a fevereiro) existem percursos de vários dias que permitem visitar o Erta Ale. Dorme-se ao relento, num acampamento à entrada do deserto do sal. É preciso alugar dois veículos: um para se deslocar e outro para o pessoal auxiliar e para o equipamento.

O deserto de Danakil localiza-se na depressão com o mesmo nome. Ocupa, no Chifre da África, parte da Etiópia, Eritreia e Djibuti. O surrealismo da paisagem compensa a dureza do clima, com as suas cores vivas e contornos impossíveis. A paisagem passa drasticamente da brancura impoluta dos seus lagos de sal, aos mananciais de cores do Dallol, a região vulcânica. Estamos no ponto mais baixo de África, a 125 metros abaixo do nível do mar. Não será difícil descuidar-se e meter o pé num gêiser fumegante. As lagoas queimam e são alaranjadas, verdes, vermelhas ou amarelo borbulhante, devido ao sulfeto e ao enxofre que impregnam a atmosfera de um odor intenso. Neste ambiente os rugidos vindos do interior da terra são os únicos a quebrar o silêncio.
A última erupção do vulcão Erta Ale foi em 2009.
Há mais de 30 vulcões ativos no Danakil. Erta Ale é o mais ativo da Etiópia. A sua alcunha, “porta do inferno”, intimida, apesar de ser um dos menores vulcões do mundo, com apenas 613 metros de altura. É preciso esperar pela noite para subir à caldeira do Erta Ale e observar de perto a lava que se acumula na sua cratera até formar um lago. Em todo o mundo só existem quatro vulcões deste gênero e este é o mais antigo.
Danakil é a terra dos afar, tribo seminômade de pastores que vivem neste submundo. Ali Noor tinha 14 anos quando começou a extrair sal como forma de subsistência. Fá-lo unicamente com a ajuda de um bastão e de uma faca de mato: “Por vezes esqueces o calor”, sussurra, sem deixar de picar a terra.
Quando a água dos lagos se evapora, forma-se uma crosta de sal. Consideram-no o “ouro branco”. Os trabalhadores cortam-no em blocos e transportam-no nos seus camelos. É então que começa a viagem até à cidade de Berahile, onde descarregam o sal para que os especialistas transformem os blocos em lingotes. São as caravanas do sal do Danakil. Os afar vivem o presente repetindo o passado, mas este é o seu único futuro.

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