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Sobre as serpentes de Kerala

No sul da Índia, a água dos lagos dança ao ritmo dos remos. São as regatas de barcos de Kerala, a coreografia mais multitudinária do país.
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á 400 anos, os conflitos entre os reis de Kerala eram resolvidos na água. Lutavam até a morte a bordo de um bote que percorria os canais da cidade. A arma mais poderosa era o barco mais resistente. Devanarayana foi o arquiteto que desenhou o primeiro chundan vallam ou barco-serpente. Sua proa faz lembrar uma cobra que levanta a cabeça para intimidar a presa. É o tradicional barco de guerra de Kerala.
Os barcos-serpente só podem ser tocados por homens descalços.

Terra d’água

Os backwaters de Kerala estendem-se por toda a região, formando mais de 900 m de canais navegáveis. São um ecossistema de águas salobras, que podemos visitar alugando um kettuvallam, tipo de barco tradicional usado antigamente para transportar os grãos dos arrozais.

Hoje a luta não é sanguinária, mas está em jogo o prestígio e a fama das aldeias. As regatas de barcos-serpente são competições anuais celebradas em Alappuzha, área também conhecida como Alleppey e a Veneza do Oriente, e nos arredores. A competição de maior destaque é a do troféu Nehru, que homenageia o ex-primeiro ministro indiano Sri Pandit Jawaharlal Nehru.
O sol de agosto aquece as águas do lago Punnamada. As multidões juntam-se na margem, mas as melhores vistas estão reservadas aos que pagam o bilhete mais caro. O silêncio rompe-se abruptamente. Os remadores entoam o Vanchipattu (o cântico dos barqueiros) para marcar o ritmo. É o único dia do ano em que a água do Punnamada perde sua calmaria. Em cada barco, há uma equipe, e em cada equipe, uma centena de homens. Vestem calças curtas e estão com o tronco nu. Afundam os remos na água, perfeitamente sincronizados, e então as serpentes, de 30 m a 36 m de comprimento, começam a arrastar-se. Os remadores mais fortes ficam na parte da frente. Os timoneiros distinguem-se dos restantes porque vão de pé. Alguns seguram guarda-sóis e todos estão descalços em sinal de respeito. O troféu é uma réplica de prata de um barco-serpente, mas o verdadeiro prêmio é o orgulho de pertencer à aldeia que cruza a meta em primeiro lugar.
Onam reúne pessoas de todas as castas, religiões e comunidades.
Foto: Ajayptp / Shutterstock.com
Yamir trabalha como carpinteiro na aldeia de Aranmula. Durante o ano, encarrega-se da manutenção dos barcos. “Envolvo a madeira com uma mistura de óleo de peixe, óleo de coco e casca de ovo para que resista à água.” No entanto, a decoração não é tarefa sua. Os habitantes de cada aldeia adornam o chundan vallam com devoção divina, utilizando cordões de ouro, tecidos e bandeiras coloridas.
Os barcos que percorrem os backwaters são fabricados com madeira de coqueiro e revestidos com bambu.
A regata do troféu Nehru é a mais concorrida, mas a mais antiga é a de Champakkulam Moolam. Realiza-se a uns 25 km de Alappuzha e marca o início da temporada de provas em Kerala. A regata Payippad Jalotsavam, a 35 km, tem maior duração: são três dias nos quais os remadores agitam as águas cristalinas do lago Payippad, mas o evento decisivo acontece mesmo só na última jornada. Nos dois dias que a antecedem, os barcos-serpente desfilam pela água criando uma procissão colorida acompanhada por cânticos. Então, não há pressa nem rivalidade: apenas a água de Kerala vibra ao ritmo dos remos.

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